REGULE SEU FUNCIONAMENTO MENTAL NUMA BOA COMPOSIÇÃO A PARTIR DESSE CONHECIMENTO
Freud, em sua descoberta sobre o funcionamento do aparelho
psíquico aborda a distinção entre processo psíquico primário e processo
psíquico secundário citando-os primeiramente em 1895 em seu texto Projeto Para
uma Psicologia Científica.
No capítulo VII de A Interpretação de Sonhos de 1900 essa
distinção entre processo primário e processo secundário permanece imutável no
pensamento freudiano. (Laplanche e Pontalis, 1996:371/372).
Descobriu que ambos os processos criam a tessitura dos sonhos
bem como os comportamentos diurnos em termos de pensamentos e atitudes.
O processo primário do funcionamento psíquico trata-se do
pensamento ligado as imagens, uma constituição formada nas primeiras vivências
do humano sobre a Terra.
Para esse humano tudo era pensado em símbolos, a água, o céu,
os trovões, a cachoeira, o frio extremo, o calor extremo, etc. Tais pensamentos
deram lugar aos rituais e a criação dos deuses e de suas superstições.
O processo primário é da ordem instintual, sendo notório que
a psique instintiva se comunica pelos símbolos, cabendo ao processo secundário
utilizar da razão para sua compreensão racional do conteúdo apresentado em
imagem.
Os processos irracionais inconscientes são os processos
primários, modos de funcionamento do aparelho psíquico, os quais entram em ação
quando ideias são abandonadas às suas próprias excitações, ou seja, aos
instintos e suas pulsões, acontecendo de serem, essas ideias, carregadas pela
energia primária do inconsciente.
Por outro lado, os processos secundários referem-se aos
sistemas consciente e pré-consciente.
Em 1915, no texto O Inconsciente, quando Freud traz
concepções mais refinadas em relação às características dos diferentes
sistemas, afirma que os processos psíquicos do inconsciente apresentam
características especiais, diferentes do sistema consciente.
Essas características especiais a que se refere estão
estritamente relacionadas aos instintos e suas pulsões. O pensamento do
indivíduo se dá de modo não racional, o que significa que se faz de maneira
primária, ou seja, por ideias ainda imbricadas na imagem e não por ideias já
raciocinadas e, portanto, livre das pulsões e de seu conteúdo simbólico.
O processo secundário inclui o raciocínio, a crítica racional
e despudorada que esvazia da ideia sua conotação mágica e transcendental.
Enquanto Freud pesquisava esses dois processos nas doenças da
neurose, Carl Gustav Jung os pesquisava nas doenças da psicose, porque enquanto
Freud atendia em seu consultório médico, Jung trabalhava diretamente com os
psicóticos no Hospital Psiquiátrico de Burghölzli onde foi Chefe de clínica no
período de 1905 a 1909. Entre 1905 a 1913, Jung dava aulas de psicologia e
psiconeuroses na Faculdade de Medicina de Zurique.
O contexto de vida que
cercava Freud, um judeu em plena época nazista, o impedia de se incursionar
pela questão maior que impulsionava Jung, que era justamente a questão da
religiosidade.
Freud já havia feito muito ao apontar a questão da
sexualidade naquele universo de 1880/1900 em que vivia. Fundamentou a
Psicanálise, dando-lhe estruturas incontestáveis e era isso que o mobilizava.
Jung vivia outro universo, não precisava estabelecer-se
diante do mundo. Era rico, vivia num país neutro – Suíça – e escrevia muito
mais para si mesmo do que para os outros, enquanto Freud assumiu para si o
compromisso ilibado de fundar a nova ciência da Psicanálise.
O que Jung queria comprovar era que a espiritualidade é um dos instintos da humanidade, assim como o instinto de sobrevivência, o de procriação
e outros.
Desde sua tese de doutoramento cujo título “Sobre a
psicologia e patologias dos fenômenos ditos ocultos” já se delineava sua
preocupação com a religião e a ciência. Principalmente em sua época, tais
assuntos não se coadunavam de modo algum, no entanto, Jung percebeu que a
compreensão da criação de símbolos era crucial para o entendimento da natureza
humana.
Jung explorou as
correspondências entre os símbolos que surgem nas lutas da vida dos indivíduos
e as imagens simbólicas religiosas subjacentes, sistemas mitológicos, e mágicos
de muitas culturas e eras.
Graças à forte
impressão que lhe causou as muitas notáveis semelhanças dos símbolos, apesar de
sua origem independente nas pessoas e nas culturas (muitos sonhos e desenhos de
seus pacientes de variadas nacionalidades exprimiam temas mitológicos
longínquos), foi que ele sugeriu a existência de duas camadas da psique
inconsciente: a pessoal e a coletiva.
O inconsciente pessoal inclui conteúdos mentais adquiridos
durante a vida do indivíduo que foram esquecidos ou reprimidos, enquanto que o
inconsciente coletivo é uma estrutura herdada comum a toda a humanidade
composta pelos arquétipos – matrizes de pensamento, predisposições inatas para
experimentar e simbolizar situações humanas universais de diferentes maneiras.
Há arquétipos que correspondem a várias situações, tais como
as relações com os pais, o casamento, o nascimento dos filhos, o confronto com
a morte. Uma elaboração altamente derivada destes arquétipos povoa todos os
grandes sistemas mitológicos e religiosos do mundo que se apresentam de modo
espontâneo nas fantasias e delírios de pacientes psicóticos e com menos
ocorrência, mas ainda assim acontecendo, junto aos indivíduos portadores de
neurose.
A partir da contribuição de Jung, vários desenvolvimentos em
diferentes áreas do conhecimento têm ampliado a compreensão da relação entre os
processos psíquicos e o mundo exterior.
O conceito de inconsciente coletivo, por exemplo, encontra
ecos na física do holo movimento de Bohm, na ecopedagogia de Capra, na
transdisciplinaridade de Rocha Filho, na alma do mundo de Goswami, nos campos morfogênicos
de Sheldrake, na psicologia profunda e na ecopsicologia norte-americana.
Além de sua experiência em psiquiatria, Jung pesquisou “in
loco”, excursionou buscando encontrar junto aos povos primitivos material
simbólico que fundamentassem sua tese de que o processo primário da psique é
feito principalmente por imagens e simbologia.
1924 – 1925: Visita aos índios Pueblo do Novo México (Estados
Unidos);
1925 – 1926: Expedição a Uganda, ao Quênia, às margens do
Nilo; visita aos Elgonys no Monte Elgon;
A crença nos espíritos, a crença em entidades superiores, a
crença na vida após a morte, as diversas superstições e rituais advém desse
primeiro tipo de processo de pensamento.
Ainda pesquisando sobre o processo primário, percebe-se em
todas as mitologias, crenças e ideologias que o humano procura por uma figura
paterna e que a mais das vezes, busca se embrenhar novamente para dentro do
útero materno através de rituais, drogas, e tudo que lhe possa causar
rebaixamento de consciência, na modernidade podemos incluir a rolagem no
celular e suas derivações de entretenimentos e, sobretudo, as ideologias.
O processo secundário
do pensamento humano se inicia muito mais tarde na história humana, muitos
estudiosos afirmam que se iniciou quando o humano começa a se utilizar do fogo.
A partir daí sua alimentação sofre uma boa alteração em termos mais saudáveis e
com isso o cérebro humano se expande, ganha novas sinapses e logo em seguida o
humano começa a utilizar de utensílios para satisfazer suas necessidades.
No entanto, o processo primário não foi substituído,
requerendo uma composição junto ao processo secundário para o melhor
funcionamento do organismo tanto individual quanto coletivo.
Quando apenas o processo primário é contemplado, a natureza
primária do humano se faz presente em suas atitudes e comportamentos numa
evidente doença dos instintos. No
entanto, quando apenas o processo secundário é contemplado, a doenças da razão
se faz presente no âmbito individual e coletivo.
A proposta para que o humano evolua como ser inteligente é
aprender a se utilizar de ambos os processos de modo que um compensa o desvario
do outro, gerando o comportamento coerente e sensível.
CORRELATOS ENTRE OS PROCESSOS INSTINTIVOS E OS RACIONAIS
Os correlatos entre os processos instintivos e os racionais
podem ser compreendidos como uma relação de complementaridade dinâmica, e não
de oposição. Sob uma perspectiva psicológica profunda — especialmente a
junguiana — razão e instinto são dois polos de um mesmo campo psíquico,
continuamente em diálogo.
1. NATUREZA DOS PROCESSOS INSTINTIVOS
Os instintos são padrões universais de comportamento e
experiência, enraizados no corpo e no inconsciente. Eles antecedem ao
pensamento reflexivo;
manifestam-se como impulsos, afetos, imagens, sonhos e
fantasias;
orientam a vida psíquica para a adaptação, a sobrevivência e
o sentido.
Para Jung, o instinto não é cego: ele é portador de sentido,
embora esse sentido não seja inicialmente racionalizável. O instinto “sabe”
antes que o ego compreenda.
2. NATUREZA DOS PROCESSOS RACIONAIS
A razão, por sua vez:
organiza, discrimina, nomeia e simboliza;
permite distanciamento crítico da experiência imediata;
constrói narrativas coerentes para a consciência.
O pensamento racional é uma função diferenciada da
consciência, fundamental para a vida cultural, ética e social. No entanto,
quando dissociado dos instintos, tende à esterilidade, rigidez ou alienação do
corpo e da afetividade.
3. CORRELATOS FUNDAMENTAIS ENTRE INSTINTO E RAZÃO
a) Afeto como ponte
O afeto é o principal correlato entre instinto e razão.
Todo instinto se manifesta carregado de afeto; toda ideia
verdadeiramente viva está afetivamente investida. Quando o pensamento é
destituído de afeto, ele se torna meramente formal.
Onde há forte afeto, há raiz instintiva.
b) Imagem Simbólica
O instinto se expressa por imagens arquetípicas (sonhos, mitos,
fantasias).
A razão, ao refletir sobre essas imagens, pode transformá-las
em símbolos, integrando o instintivo à consciência sem reduzi-lo.
Aqui está um ponto crucial:
racionalizar o instinto o empobrece;
simbolizá-lo o transforma.
c) Teleologia psíquica
Os instintos não apenas reagem ao passado biológico, mas
apontam para um futuro psíquico — uma direção de desenvolvimento.
A razão pode reconhecer essa direção, colaborar com ela ou
resistir a ela.
Nesse sentido, a razão saudável não domina o instinto, mas
dialoga com ele, perguntando:
“Para onde esta energia quer me levar?”
d) Autorregulação da psique
A psique tende à autorregulação.
Quando a razão hipertrofia (intelectualismo, controle
excessivo), os instintos emergem de forma sintomática.
Quando os instintos dominam sem mediação racional, surgem
atuações, impulsividade e caos.
O equilíbrio se dá quando:
o instinto fornece vitalidade e sentido;
a razão fornece forma, discernimento e responsabilidade.
4. Patologias da dissociação
A ruptura entre instinto e razão pode gerar:
neuroses (instintos reprimidos que retornam como sintomas);
racionalizações defensivas (pensar para não sentir);
atos compulsivos (agir sem simbolizar).
Do ponto de vista clínico, grande parte do sofrimento
psíquico decorre exatamente da incapacidade de a razão escutar o instinto ou de
o instinto encontrar representação consciente.
5. Síntese
Os processos instintivos e racionais são correlatos porque:
compartilham a mesma energia psíquica;
diferem apenas no nível de diferenciação da consciência;
necessitam um do outro para produzir vida psíquica plena.
Em termos junguianos, poderíamos dizer:
o instinto fornece a matéria-prima da alma;
a razão, quando a serviço do Self, ajuda a transformá-la em
consciência.
Em última instância, até mesmo em nossa psique o que nos traz
saúde mental não é a competitividade e sim a cooperação. Se não tivermos essa
disposição conosco mesmo, com certeza, não a teremos nas relações sociais e no
mundo.
