O rei da Síria,
Téias, tinha uma filha de nome Mirra que desejou competir por sua beleza com a
deusa Afrodite.
E como todos os
deuses são loucos, Afrodite rogou uma maldição sobre Mirra. Por haver afrontado
a deusa agora teria uma paixão pelo próprio pai.
Mirra totalmente
possuída pela maldição, concebeu um plano junto com sua aia Hipólita de modo a
conseguir enganar Téias unido-se a ele durante doze noites consecutivas.
Na derradeira noite, o rei descobriu o engodo e a
perseguiu para matá-la. Os deuses, dela se apiedaram e a transformaram na
árvore que hoje possui o seu nome, Mirra.
Meses depois, a
arvore começou a inchar, no decimo mês ela se abriu nascendo Adônis, tão belo e
tão singelo que a própria Afrodite, tocada por sua radiante beleza, o recolheu
e secretamente o levou ao Hades para que Perséfone, a guia das almas, o
cuidasse.
Depois de ter se
tornado um jovem, Perséfone se negou a devolvê-lo para a deusa do amor. A luta
entre as duas deusas foi arbitrada pelo deus do Olimpo que estipulou que Adônis
passaria um período do ano com Afrodite e outro período com Perséfone tendo
também um tempo do ano só para si.
A jovem Ártemis, deusa da caça e da Lua, e não se
sabe bem o porquê, lançou contra ele a fúria de um javali que o matou.
A pedido de Afrodite, o jovem de rara beleza foi
transformado por Zeus na flor da primavera de nome anêmona que até hoje
simboliza o amor intenso, embora frágil ou mesmo ameaçado.
Evidentemente o mito se prende aos ritos sagrados
da vegetação. Até mesmo o embate entre ambas as deusas, Afrodite que é a vida
da planta e Perséfone que é sua morte nas entranhas da terra.
Ambas, a seu
modo, reclamam o simbolismo da vegetação primaveril, a estação do ano celebrada
como a mais linda e a mais apelativa ao sexo instintual da procriação e da
contemplação do amor.
Contra a decisão de Ártemis em exterminar Adonis e
no afã de salvar seu amor das presas do javali, Afrodite pisou num espinho e
seu sangue coloriu a rosa branca que ali se encontrava, originando a rosa vermelha
da paixão e da exuberância da vida.
O poeta grego da
época, Bion do fim do século IV a.C., relata que de cada gota de sangue de
Adônis nascia uma anêmona e de cada lágrima de Afrodite nascia uma rosa branca
depois tingida de vermelho pelo sangue da dor e do desfalecimento.
Aos olhos do amante sua amada é a mais bela, aos
olhos da amada seu amante é o mais belo, o amor e o desejo transfiguram a
pessoa de cada um. E entre seus olhares, quando um olha profundamente nos olhos
do outro existe o convite para que ela e ele transfigurem o mundo de ordinário
e corriqueiro em uma aventura de delícias e belezas.
Quando esse encontro acontece significa que
vislumbraram um mundo em esplendor, cheio de cores, sol, vida, acasalamentos e
voos de pássaros a cantar a liberdade que ora vivem contra o encarceramento do
ordinário material da sua existência. Agora torna-se impossível viver dentro
daquele sistema anterior que lhe foi imposto.
A beleza é por si só revolucionária. Somente um
javali para lhe tirar a vida. Um animal, embora belo, é símbolo conservador da instintividade rude e
brutal.
Se você pensar bem, rude e brutal está a ocupação
de nossa existência. Rude e brutal estão nossas palavras despojadas do belo.
Despersonalizado
do olhar pungente da beleza estão nossas casas e nossos trabalhos. Rude e
brutal estão nossas relações com os impares, pois que só se admite belo aquilo
que lhe é par.
O espelho qualifica
e legitima o egoísmo.
A pujança do amor, da beleza e do desejo, está
presente nas construções e produções de intensidade e de leveza primaveril que
muitos ainda ousam retratar, contemplar, talvez até, construir.
Contudo, a fúria do javali, incitado pela deusa da caça, atinge essa pujança de
modo fatal.
Devemos lembrar
que a anêmona e a rosa continuam a desabrochar em todos os jardins dispostos a
cultivá-las, dispostos a se defender daquilo que significa o javali em nossa
história.
Lunardon Vaz
