A lenda do “Corpo-Seco” é uma história folclórica brasileira nascida em
meados do século XX, com forte influência do continente europeu estando muito
presente na cultura popular dos portugueses. É muito comum em Minas Gerais, nos
estados de São Paulo, Paraná e Santa Catarina.
A Netflix lançou em Fevereiro de 2021 a série brasileira “Cidade Invisível” do
diretor Carlos Saldanha, baseada em uma história desenvolvida por Raphael
Draccon e Carolina Munhóz, ambos autores de best-sellers e roteiristas da
série.
Cidade Invisível traz diversas referências ao nosso folclore brasileiro,
como Curupira, Iara, Saci Pererê, Cuca, Boto Cor de Rosa e precisamente essa do
Corpo Seco ganhou grande interesse pelo publico.
Comparado ao mito do zumbi, Corpo Seco conta sobre um homem muito cruel que
vivia prejudicando as pessoas, inclusive aquelas que o amavam e que dele se
aproximava com a melhor das intenções. Maltratava com requintes de manipulações
psicológicas, chegando à consequência física até mesmo contra sua própria mãe.
Seu modo de vida violento o levou a uma morte também violenta, conta a lenda
que fora assassinado.
Entretanto, não pode ser enterrado e nem recomendado a Deus e nem ao
Diabo. A Terra não aceitou o seu corpo, Deus o rejeitou e o Diabo não o quis. E
quando a Morte foi questionada do por que não o levar, ela simplesmente
respondeu: “Minha missão é a de ceifar a vida. Levo alguém que tem vida, não
faz sentido levar alguém que já está morto”.
Sendo a lógica perfeita ninguém mais a questionou, mas todos sabem que há
muitos Corpos Secos zumbizando por aí afora faminto de vida. De vida dos
outros!
Feito assombração, se esgueira pelas sombras, assustando, desaparecendo aqui e
aparecendo acolá. De modo que se alguém cruza seu caminho, imediatamente ele o
agarra e suga-lhe até as entranhas tornando-o tão seco quanto ele. Na falta de
gente faz o mesmo com as arvores e plantas que ficam ressequidas de uma hora
para outra após seu enlace fatal.
Na prática de nosso dia a dia, quem seriam os zumbis ou Os Corpos Secos? Aposto
que vocês já fizeram alguma ideia sobre isso!
Algumas características saltam aos olhos: não possui vida própria restando-lhe
invejar e desejar o sangue alheio; o amor e o bem estar que o cerca não é por
ele valorizado; não demonstra gratidão e nenhuma empatia diante do sofrimento
que impõe aos que o rodeiam; sua vontade é a que deve prevalecer em detrimento
da vontade alheia; quando deseja algo cria jogos de manipulação e se mesmo
assim não conseguir pode chegar à força bruta. O clima a sua volta é o do medo,
pois não há previsão para quando acontecerá um novo ataque explosivo ou de
dardos envenenados.
Andar como que pisando em ovos faz parte da vida das pessoas que convivem com
assombrações.
Outra questão que se deve salientar é a de que o Corpo Seco não é uma
exclusividade do gênero masculino, atinge todo e qualquer gênero humano.
Curiosamente a lenda surge no século XX. Século este que ficou marcado como um
período de uma crescente e intensificada onda de individualismo. Muito se tem
falado sobre relações toxicas, o que quero aqui é justamente chamar a atenção
para o Corpo Seco que mora em nossa própria mente e que mente de tal modo que a
gente pensa mesmo que suas mentiras a nosso respeito são as verdadeiras.
O zumbi que nos acompanha na mente nos faz acreditar que somos incapazes e
infelizes. Assim que temos uma nova alegria ele vem com tudo e com sua boca
devoradora toma de canudinho nossa seiva de vida nos prostrando ao ponto de nos
fazer desejar desaparecer acreditando piamente que somos os seres mais
desprezíveis do planeta.
Não dê chance ao seu Corpo Seco, aprenda dele se defender, o primeiro passo é o
da separação. Separe ele de si mesmo.
Trate-o exatamente como ele é: um espectro devorador de sua energia
vital. Coloque limite. Não aceite mais suas observações infundadas. Suas críticas
irracionais. Seu jogo sarcástico e jamais faça das palavras dele as suas
palavras.
Ele não vai desaparecer, mas com certeza, desse modo, você estará
aprendendo a usar uma poderosa arma de defesa contra todos os Corpos Secos.
Pois quem domina a estratégia contra o seu próprio zumbi não terá dificuldade
alguma com os Corpos Secos andantes que cruzam o seu caminho.
Para os mais vigilantes, talvez, passe a sentir apenas a tristeza
por ver tantas potências desperdiçadas e tantas mentes completamente dominadas
e ressequidas, rejeitadas até mesmo pela Senhora Morte, pois como ela se fez
compreender, não há sentido em levar o que ja não tem vida.
Outra coisa a ser denunciada é que ocorre um fenomeno psicológico
chamado de SíNDROME DE ESTOCOLMO em que a vítima desenvolve identificação
com seu agressor, até parece com a referencia do vampiro que mordendo a pessoa
ela passa a ser também um vampiro escravizado.
Na verdade é um mecanismo de defesa inconsciente em
que a pessoa em situação de abuso ou de grande estresse passa a nutrir
simpatia, afeto e lealdade para com o seu algoz. É muito comum e corriqueira
tal estratégia de sobrevivência, apesar de perigosa para si mesmo e para os
demais ao seu redor.
IDENTIFICAÇÃO COM O AGRESSOR, é um termo descrito
em psicanálise por Sándor Ferenczi e por Anna Freud sendo um mecanismo de
defesa em que a vítima internaliza características ou atitudes iguais ao
agressor numa tentativa de controlar seu medo e sua ansiedade diante da
situação traumática, sobretudo é um tipo de manifestação clínica sendo passível
de tratamento.
Essa condição recebeu esse nome devido a um assalto a banco
ocorrido em 1973 em Estocolmo, na Suécia. Durante os seis dias de impasse com a
polícia, muitos dos funcionários do banco mantidos em cativeiro simpatizaram
com os assaltantes. Após serem libertados, alguns funcionários se recusaram a
testemunhar contra os assaltantes no tribunal e chegaram a arrecadar dinheiro
para a defesa deles.
Um criminologista e um psiquiatra que investigaram o evento
desenvolveram o termo “síndrome de Estocolmo” para descrever a
afinidade que alguns funcionários do banco demonstraram pelos assaltantes.
Seu bem estar mental é tão importante quanto seu bem estar
mental. São vários os sintomas que consomem sua saúde de quem está vivenciando
a Síndrome de Estocolmo, ansiedade, depressão e dificuldade para dormir além de
não relaxar o suficiente para apreciar as coisas boas e os acontecimentos felizes
de sua vida cotidiana.
A psicoterapia é a melhor opção, posto que o tratamento medicamentoso é tão
somente paliativo porque não lida com os sintomas, apenas os administra.
O Corpo Seco é uma lenda realista e frequente em nossos dias.
