O QUE ISSO TEM A VER COM DEPRESSÃO E OUTRAS DOENÇAS MENTAIS?
Nossa realidade distópica está na base de várias neuroses atuais, como a depressão, a síndrome do pânico, ansiedade estrutural e Transtorno Desafiador Opositivo (TDO) que se caracteriza por um padrão persistente de comportamentos de raiva, hostilidade, teimosia e desobediência, principalmente direcionado a figuras de autoridade, como pais, professores e responsáveis.
Para explicar teremos de verificar quais são os fatores estruturantes da civilização atual, a saber:
- A tecnociência que traz a digitalização da vida através da Inteligência Artificial, da biotecnologia e da automação. Com isso a técnica deixou de ser uma ferramenta e se tornou o ambiente da existência.
- O capitalismo global financeiro que trouxe uma economia interligada produzindo o poder de grandes corporações, a financeirização onde dinheiro gera dinheiro, a cultura do consumo fazendo com que o valor social fica frequentemente ligado a produtividade e poder de compra. Uma ilusão que desqualifica a competências, carater, etica e a sensibilidade.
- A globalização cultural trazendo a mistura de culturas, padronização de comportamentos, cultura digital global e redes sociais como espaço simbólico do coletivo. O que proporciona uma espécie de inconsciente cultural global em que as pessoas viram uma massa informe e sem personalidade.
- A Individualização psicológica com muita ênfase no eu, na autonomia e na autorrealização; total fragilização de vínculos e uma ansiosa busca de sentido pessoal. Temos então, mais liberdade, mas também mais solidão e mais ansiedade existencial.
- A Crise Ecológica com sérias mudanças ecológicas, um verdadeiro colapso da biodiversidade e salutarmente, o questionamento do modelo de progresso. Pela primeira vez a civilização percebe o limite material do planeta Terra, sua grandeza e o abuso das grandes corporações ou a ganancia pelo poder.
Esses fatores estruturais mostram-se visíveis no cotidiano como aceleração do tempo em que a urgência se faz constante criando uma cultura da resposta imediata, consequentemente dificuldade de espera e de maturação psíquica porque ocorre enfraquecimento do processo simbólico que precisa de tempo.
Na vida mediada por telas as relações são filtradas por tecnologia, a realidade e o virtual se misturam mesmo porque o indivíduo faz sua construção de identidade publica digital. Se não tiver a identidade publica digital, praticamente, não existe.
Criou-se a cultura da imagem e do desempenho com exposição permanente, auto apresentação como produto havendo comparação social contínua, gerando frustração e angustia.
Daí temos a crise de sentido com a derrocada de narrativas religiosas tradicionais, uma busca espiritual difusa, grande crescimento de terapias alternativas, espiritualidades hibridas e autoconhecimento feito tomar uma pílula. Tudo tem que ser rápido, sem momento de reflexão e nem de crítica substancial.
Outro fator visível na sociedade distópica é a fragmentação de identidade que é atravessada por pertencimentos fluídicos, múltiplas identidades e questionamento de papéis tradicionais com a tendencia de dissolução de todos os vínculos familiares. A fraternidade, a solidariedade, a ternura, o vínculo afetivo sólido e continuo são rapidamente descartados e o que assume seu lugar são vínculos frágeis, incertos ou mesmo ocorre substituição por ideologias que prometem pertencimento, mas que, na realidade, apenas é utilizado pelo poder.
Como se não bastasse ainda temos a questão da velhice e a violência em vários degrades. Mas, esses assuntos serão tratados em outro momento.
Por ora vou me ater em trabalhar um olhar mais junguiano procurando fazer uma leitura simbólica sobre essa sociedade.
Podemos ver a civilização atual dominada por alguns arquétipos, lembrando que o processo de individuação requer seu conhecimento e posterior distancia para, enfim, não ser tomado inconscientemente, pois o conhecimento consciente desses arquétipos libera energia psíquica para que o ego saiba lidar com eles e sua sombra.
Esses são alguns arquétipos bem presentes e dominantes:
O arquétipo de Prometeu, aquele que roubou o fogo do Olimpo presenteando o humano. O deus do Olimpo, Zeus, fez com que o amarrassem em uma rocha e que uma águia comesse seu fígado imortal diariamente e para sempre. Seu nome significa previsão ou premeditação.
Em nosso mundo, ele passa a ser o trickster tecnológico de tecnologia sem limite ético produzindo sombra social e cultural, quanto mais inconsciente este trickster social mais absorção da pessoa ou das pessoas possui e a depender do caráter daqueles que alimentam a tecnologia da inteligência artificial. Previsão e premeditação ficam unilaterais, pertencem apenas ao trickster tecnológico.
Em seguida pode-se verificar com facilidade o domínio do Puer Aeternus Coletivo (a Eterna Criança), d´onde as pessoas estão freneticamente em busca de novidade, corpo perfeito, distrações, juventude, diversões e com muita dificuldade em sustentar compromissos, assumir responsabilidades, regular emoções e lidar com frustrações.
Na sequência, não se pode deixar de ver a sombra de Votan, o deus nórdico, arquétipo do poder e da ganancia, triturando pessoas que não estão de acordo com suas leis feitas por ele mesmo com um único objetivo: o anel do poder. Por onde tem influência, ele sacrifica a beleza, o amor e intensidade de vida.
Por último é visível e assustador, a Sombra Coletiva crescente e dilatada em polarizações, violência simbólica, extremismos e radicalizações.
O olhar junguiano contempla a compreensão dos contrários, de modo que também se nota um movimento compensatório frente as tais situações como facilmente se detectam. À par dessa distopia ocorre mais busca de espiritualidade, maior interesse por psicologia profunda, uma variedade de tentativas de retorno ao corpo, à natureza e aos rituais diversos como maneira de compensar a unilateralidade racional com vivencias simbólicas ou tratamento junto à simbologia.
Em síntese, a civilização atual é marcada por alta potência tecnológica, conectividade global, individualização psíquica, crise de sentido, pressão ecológica, cultura da velocidade e da imagem, incerteza, fragilidade, impotência e invisibilidade como sujeito.
Em aprofundando o assunto, pode-se citar as características diatópicas sociais:
Permanente vigilância através de monitoramento digital, os dados pessoais são usados como mercadoria alimentando algoritmos que preveem o comportamento e tornam o sujeito em objeto de venda. O que se traduz em perda gradual da privacidade e da autonomia real.
Desigualdade extrema, está acontecendo a concentração inédita de riqueza; em elite tecnológica-financeira global como também grandes massas precarizadas pela fome, falta de saneamento básico, de saúde, de educação e de segurança.
A condição que se estabelece é a de castas econômicas rígidas e sem esperança para quem faz parte da base piramidal.
Substituição humana sistêmica é visível através da automação de trabalho intelectual e manual; da redução do valor simbólico do humano produtivo e da crise de identidade ligada ao trabalho. O risco distópico é a sensação coletiva de inutilidade existencial e o sentimento de menos valia.
Colapso ecológico progressivo que, indubitavelmente, se apresenta em eventos climáticos extremos; migrações climáticas e escassez de recursos naturais que causam riscos de guerras por água, por comida e por território.
E quais seriam, então, as Características distópicas psicológicas?
Estamos vivenciando dependência psíquica de tecnologia, claramente se percebe a dificuldade de existir fora do digital. A mudança de atenção que antes poderia ser focada, hoje é fragmentada e a dopamina sendo imediata não fornece tempo suficiente para a elaboração simbólica de qualquer situação e conteúdo.
A identidade agora é performática, para existir tem de ser visto donde que a vida é como uma vitrine e o Self cada vez mais empurrado para o externo, o que prejudica reflexão, vida simbólica, atuação crítica e performance individuada e não individualizada. O ego não se atrela ao inconsciente daí não possui o contato com o self profundo.
Não é à toa que vivemos em ansiedade estrutural pela sensação permanente de ameaça, de sobrecarga informacional e a percepção de futuro incerto ou instável.
Para finalizar a situação distópica aqui reconhecida temos, infelizmente, a concretização da solidão coletiva pois quanto mais conexão digital menos vínculo profundo ou mesmo raso.
Aqui as relações são substituíveis sem que aja a compreensão de que pessoas são completamente insubstituíveis dada sua complexidade e genuinidade. A fragilidade comunitária está posta e todos vivemos em perigo, social, físico, emocional e psicológico.
Para a Psicologia Analítica bem como citou Jung, quando uma cultura fica unilateral em algum tipo de excesso, no caso, tecnologia, poder e ego, o inconsciente responde com mitos sombrios, imagens apocalípticas, narrativas distópicas e inúmeras fantasias de colapsos.
Em suma, as distopias são sonhos coletivos de alerta, que não estão sendo contemplados pelos humanos no poder. A falência, a miséria, a doença e a morte estão sendo produzidas por um sistema que contempla apenas o jogo do poder e da ganância. E sim, o povo é vítima e impotente principalmente devido a ignorância, a falta de conhecimento. O desejo de ser paternado ou maternado, leva a população ao auto engano do pertencimento e enquanto isso, os donos do poder criam a maior distância entre a riqueza e a pobreza; entre a ignorância e a sabedoria; entre a solução e a dissolução da existência e até mesmo do planeta.
Minha utopia: Hoje os pilares do mundo civilizado são a política e a religião e vem sendo assim por séculos e por séculos não tem resultado em prosperidade coletiva. Em minha utopia esses pilares seriam substituídos pela tecnologia e pela ciência. Hoje a corrupção atravessa a ambas. Em minha utopia tecnologia e ciência seriam integras e éticas. Se fosse assim, não haveria no mundo uma única pessoa na miséria, porque essa é produzida e sustentada pela politica e pela religião. Tecnologia e ciência limpas da corrupção resultariam em mais saúde, mais educação, mais riqueza distribuída a todos, mais segurança e sobretudo, consciência planetária em que fauna e flora seriam respeitadas.
O humano está no topo da cadeia alimentar e também no topo do maior predador da história do planeta. Em minha utopia, o humano conheceria emocionalmente esse seu lado sombrio e se libertaria de seu domínio, sendo capaz de bem administrar sua sombra sem perda para com a comunidade e para com o planeta.
