Carl Gustav Jung, ainda no início do século XX, visitou uma tribo primitiva em uma de suas várias excursões de estudos e pesquisa.
Nessa tribo, presenciou o pajé da tribo reunindo toda a sua comunidade para que todos se inteirassem de um sonho de um determinado membro da tribo.
Questionado por Jung, o pajé revelou que existem os chamados grandes sonhos.
Esses sonhos recebem esse nome porque embora um só dos membros da tribo tenha sido o sonhador, todos devem sonhar o mesmo sonho, pois está nele contido um significado que será utilizado como fonte de cura para toda a comunidade.
Jung compreende que há sonhos onde a simbologia diz respeito à comunidade como um todo e não simplesmente a um de seus indivíduos.
Essa verificação é corroborada por suas pesquisas junto a pacientes de psicose, porque estes pacientes através de seus
delírios e fantasias apresentam simbologias de caráter universal.
Assim, o sonho arquetípico é um sonho cuja simbologia é universal, significando que todos aqueles que o ouvem sentirão em seu íntimo que sua representação possui um eco em sua própria psique.
O sonho arquetípico ou universal, cumpre assim com mais uma
de suas funções, a função de inspirar o sonhador a se organizar e a melhor utilizar sua energia psíquica em prol da ocupação de sua existência.
O sonho que hoje apresento, foi pinçado dentre muitos outros sonhos desse mesmo porte que tive a oportunidade de conhecer através do meu trabalho em psicologia clínica.
A sonhadora é uma mulher de pouco mais de trinta anos e o seu sonho, como disse o pajé, deve ser sonhado por todos nós, por que apresenta uma solução para o bem estar na vida afetiva. Trata-se de um sonho sobre o princípio de Eros e o comprometimento com os vínculos amorosos.
No sonho, a sonhadora está caminhando por uma estrada de terra quando se depara com um homem de bicicleta e apressadamente lhe pergunta onde poderia encontrar o seu namorado.
Ela está ansiosa e teme não chegar a tempo para esse encontro, pois desconhece o local o está procurando a esmo por um bom tempo.
Para sua feliz surpresa, o rapaz da bicicleta lhe indica o local do encontro.
Ela olha na direção por ele apontada e vê uma igreja ou templo cuja abóbada está em chamas. O rapaz insiste em dizer que o encontro é nessa igreja ou templo.
Nossa sonhadora corre pra lá e encontrando as portas fechadas, bate e é atendida pelo próprio pastor ou padre que está realizando um casamento.
Ela vê os noivos em seus trajes cerimoniais.
O líder espiritual, interrompe a cerimonia para lhe informar que seu encontro acontecerá atrás da igreja ou templo.
O líder espiritual lhe mostra o caminho que é logo ali à sua direita: é uma espécie de corredor em forma de tobogã.
Rapidamente e sem perder tempo, ela se vai por ali e cai atrás da igreja.
Ao chegar, devido a uma agradável visão, permaneça em silêncio para apreciar o que vê.
Um jardim, cuja relva orvalhada lhe parece encantadora. Está assim entretida e extasiada quando adentra ao jardim uma outra mulher.
Curiosa, a sonhadora observa, agora sua ansiedade deu lugar a uma serenidade contemplativa, seu coração está em paz.
A mulher está usando um lindo vestido vermelho. Seu rosto é a expressão do prazer e ao tirar os sapatos também vermelhos, delicadamente mergulha seus pés na relva verde e orvalhada, está extasiada de prazer, ela se abaixa e acaricia com suas mãos esse terreno docemente idílico.
Depois, mansamente, se deita sobre a relva num movimento sensual de rolar, parece até namorar a terra.
Nossa sonhadora sente também o prazer e a sorrir, se aproxima do rosto da mulher ainda ali deitada. Quase tocando em seu rosto pergunta -lhe se viu o seu namorado, pois tem um encontro com ele nesse mesmo lugar.
A linda mulher de vermelho, simplesmente lhe responde:
“ANTES DE SE ENCONTRAR COM ELE, VOCÊ TEM UM ENCONTRO COMIGO!”.
A sonhadora acorda nesse momento com uma sensação de grande bem estar.
ANÁLISE ARQUETÍPICA
Na sequência apresento uma análise arquetípica desse sonho, lembrando que nesse tipo de análise, tudo e todos os personagens que se apresentam no sonho, perfazem um conteúdo psíquico do próprio sonhador ainda desconhecido pelo ego ou quase desconhecido.
Como esse sonho é universal não há nenhuma necessidade em se conhecer a vida pessoal do sujeito e nem mesmo de expô-la.
O conteúdo desse sonho é substancial para todos que se interessam pela saúde mental e pela linguagem simbólica.
A sonhadora que passo a chamar de M. caminha por uma estrada de terra.
A estrada de terra vem representar um caminho livre da construção urbana, portanto, esse caminho é mais direcionado ao que podemos chamar de construção natural.
Seu caminhar está seguindo um fluxo natural quando encontra um homem de bicicleta e lhe pergunta sobre o seu encontro.
O homem de bicicleta é a representação de seu animus. O aspecto convencionalmente masculino da psique feminina. Ele se encontra em um veículo de locomoção individual, significando que seu aspecto masculino de seguir pela vida acontece de modo particular. O processo psíquico de cada pessoa é solitário e compete apenas à pessoa.
Por outro lado, sua ação masculina pode ser introvertida, sem necessidade de exposição coletiva, preferindo fazer suas ações de maneira reservada e para sua própria apreciação. Não há como instigar outra pessoa a seguir nosso caminho ou mesmo apreciá-lo, pois as experiências psíquicas assumem um caráter individual e intransferível.
Esse aspecto do animus atua como um guia psíquico.
Usualmente, quando se está a procura ou a espera por um encontro afetivo, sente-se ansiedade, insegurança e parece que se esta a buscar a esmo num universo caótico.
Como o aspecto masculino chega através da razão, nossa sonhadora pode usar de objetividade em suas escolhas e caminhos mesmo porque, agora ela já tem direção.
O encontro a que almeja está marcado num templo ou igreja cuja abóbada se encontra em chamas.
O templo representa o corpo moral cristão de M., mais especificamente a abóbada representa o arcabouço moral de M.
Assim, para que M. tenha seu encontro deverá acontecer uma queima, uma transformação pelo fogo em sua maneira de pensar e em seus modos moralistas. Sobretudo terá de rever seus valores cristãos e ressignificá-los.
Após investigação, atualização e transformação de conceitos espirituais, M. estará diante de um casamento realizado por mais um aspecto de seu animus. Um aspecto espiritual que aqui lhe guia para o tobogã, para detrás da igreja.
O casamento é símbolo da união dos opostos. Significando que o sujeito possui energia psíquica suficiente para sair da dualidade e ir além do conceito maniqueísta da vida e de toda rigidez moral que possa ter adquirido.
Quando os opostos se unem, abre-se um leque de possibilidades, nuances de cores e de escolhas não mais reduzidas ao bem e ao mal, feio e bonito, branco e preto. O sujeito ganha visão caleidoscópica. Animal e humano já não se encontram separados, há a consciência de que todos somos um entre céu e terra.
Seu comportamento, suas intenções, sua vontade e expectativas tornam-se favoráveis ao devir.
A igreja projeta sua sombra logo atrás de si. Era hábito em toda cidadezinha, namorar atrás da igreja. E como a sexualidade na luz da igreja sempre foi muito reprimida e até demonizada, seu oposto se constela em sombra, no desconhecido assombroso que surge peremptoriamente sem que o ego possa dissuadir ou controlar.
Como a moral do templo espiritual é negar o corpo e o prazer dos sentidos, sua sombra é o conteúdo escondido e negado pela consciência do ideal asceta.
O primeiro aspecto de animus lhe indicou a direção, o segundo aspecto abriu-lhe as portas e a direcionou ao seu encontro com seu duplo, seu feminino reprimido.
O tobogã é símbolo de prazer, de gozo, de clímax sexual, sobretudo representa a inocência do brincar.
M. só alcançará o local do seu encontro após se permitir gozar, brincar inocentemente, viver o prazer da vida, se tornando uma mulher orgástica em honra da própria existência.
Aí então, nesse local de relvas orvalhadas que induz ao prazer, ela se encontra com seu feminino antes demonizada pela cultura. Uma mulher que se entrega à vida que, por sua vez, representa o seu feminino, o seu duplo.
Demonstração evidente de que o prazer não está somente no órgão genital, está em tudo. Quem se permitir viver, verá!
A partir desse encontro com seu duplo, M. está pronta para assumir-se como mulher em corpo vivo. Pronta para fazer seu caminho no salto alto vermelho. Pronta para assumir o próprio corpo sensível e com ele se deliciar. Simples assim, pois para essa mulher não é o comportamento eufórico e exagerado que traduz o seu sentir, antes, é a sutileza, as delicadezas, as fontes naturais que perfazem um corpo singelo e cheio de graça.
Esse sonho arquetípico nos diz que uma mulher só estará pronta para o romance quando tiver identificado e “vestido” sua própria mulher em vermelho. Sua capacidade orgástica de prazer inocente.
Esse sonho tem a capacidade de nos guiar, através de um processo doloroso de restauração e revalorização dos valores, para o encontro com o corpo sensível de modo a nos incitar a considerar a dinâmica salutar da pulsão de vida. Trata-se do amalgama entre os sentidos, a razão e o espirito.
E para colaborar com o texto, o poeta local Vinicius Lima nos brinda com uma de suas belas poesias:
OS OCEANOS PURPÚREOS – por Vinicius Lima
Uma Lua gira
E expulso de seunúcleo
Gotas de energia
Que inundam o voo
Como a lava de um perigo
E cresce o vermelho
De dentro da fêmea
E expande o voo
Ao redor da carne
E os planetas cicatrizam
Com o empuxo do sangue
A noite é uma caixa de gente
Que armazena o masculino
E a mulher cospe a serpente
Que é a gênese do mundo
Meus sinceros agradecimentos a VINICIUS LIMA
