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ENVELHECER – Quando o sol se põe

Envelhecer é uma arte de trocar pressa por presença e acumular sentido onde antes havia apenas tempo.

 

Na psique coletiva tradicional o idoso representa a memória cultural com sua visão longeva em que sua relação com a morte e a finitude lhe confere limite em onipotência e mais sabedoria simbólica.

Entrementes, a civilização atual está sem profundidade temporal resultado de uma civilização sem anciãos simbólicos. Sem a valorização do arquétipo do velho e da velha sábios, a velhice vira falha a ser corrigida, sobretudo as diversas maneiras de retardar envelhecimento ou mesmo de maquiar o envelhecimento se traduz em negação do tempo e negação da finitude.

Ao buscar eliminar o envelhecimento e a morte, o inconsciente responde com ansiedade difusa; pânico de perda; obsessão pelo controle e sobretudo, o que se convencionou chamar de medicalização da existência, quando questões existenciais como tristeza, angústia, luto, vazio, crises de sentido e dilemas de vida são reduzidos a sintomas a serem medicados, ao invés de também ser compreendidos em suas dimensões psicológicas, sociais e simbólicas.

Com a sociedade presa ao arquétipo do Puer, que é a eterna criança, ocorreu uma ruptura do ciclo existencial humano que seria juventude – maturidade – ancião – morte – renovação.  As famílias estão fragmentadas sem seus idosos que lutam com sua solidão e isolamento constantes, bem de acordo com a perda do sentido simbólico do envelhecer. A mandala do ciclo natural da existência foi quebrada pelos humanos.

Quando o envelhecimento é vivido inclusive simbolicamente, ele se torna antídoto arquetípico contra a distopia da superficialidade porque ele traz em si mesmo a desaceleração, a quietude, a serenidade, a interiorização e tudo isso junto significa viver menos a condição egóica e mais a reconexão com a alma ou psique.

É possível que a velhice consciente possa reequilibrar a condição unilateral da sociedade que, atualmente, vivencia a situação egóica de modo particularmente extremo.

O processo do envelhecimento nos conduz ao mistério como também à ligação com a ancestralidade numa ampliação de consciência que se distingue qualitativamente do que ocorre atualmente em nossa sociedade.

Na primeira metade da vida estamos construindo a persona através da adaptação social e buscando maneiras de contemplar as expectativas sociais como sucesso profissional, posses, status social de modo a consolidar o ego.

Na segunda metade da vida encontramos o ápice potencial da individuação através da desidentificarão com a persona e maior aproximação ao Self, o que anteriormente era perda de tempo, agora é um modo de viver mais inteiro, mais pleno e sereno.

Em havendo a simplificação do ego, se constitui também a reconciliação com a própria história pessoal e quiçá, a integração de opostos como mal e bem, a saída do entendimento puramente maniqueista é um sinal característico da maturidade psicológica.

A aproximação da finitude como parte do sentido da vida é o portal do arquétipo do velho sábio e da velha sábia.

Enquanto a cultura nos diz seja jovem, seja desejável, seja produtivo, não envelheça, o processo natural de transformação nos diz para apreciar a interiorização, buscar a verdade psíquica, obter tolerância com as diferenças e a ter menos tolerância com as máscaras e com todas as suas tonalidades racionalizadas para diminuir ou menosprezar a vida por si mesma.

Quando acolhemos o processo do envelhecimento e seus valores diametralmente diferentes dos da primeira metade da vida e do arquétipo que mais prevalece no social que é o Puer, ficamos diante de um grande potencial transformativo da cultura que, distorcidamente, apregoa a invisibilidade, o isolamento e a inutilidade, talvez, despertarmos para compreender melhor o processo natural do envelhecimento seja parte eficaz de uma revolução social.

Na psicologia junguiana, não existe um único “arquétipo do idoso”, mas várias imagens arquetípicas que podem se constelar na velhice. O envelhecimento ativa temas de sentido, legado, limite, sabedoria, finitude e interioridade — e diferentes arquétipos podem expressar esses temas.

O primeiro entre tantos e o mais popular, é o arquétipo do Senex, que significa o velho ou a velha. Como todo arquétipo, este possui aspectos positivos e negativos.

Enquanto positivo podemos falar de sabedoria, discernimento, visão de conjunto de vida e toda capacidade para ser conselheiro, mentor e transmissor de conhecimento que orienta, não por imposição, mas sim por compreensão profunda sobre a experiencia humana.

Quando negativado, esse princípio do velho e da velha se torna rígido apresentando conservadorismo excessivo, amargura, rigidez moral, apego ao passado, medo do novo e acaba por se fixar em regras e controle desmedidas.

Psicologicamente, o Senex representa a passagem da vida para a morte, se não bem acolhido dentro de um processo salutar, a pessoa pode apresentar um descompasso com a realidade no sentido de estar aqui e não estar aqui, de fazer, mas não fazer, de se realizar em algo e de não se realizar, de estar presente sem estar presente, isso em sua própria existência como, sobretudo, na existência daqueles que lhe são próximos.

Receber a velhice como um estado natural significa acolher de bom grado o processo de individuação, transmitir nutrição emocional e afetiva, compartilhar de suas profundas intuições, transmitir seu legado de sabedoria sobre os ciclos de vida-morte-vida, se permitir à verdade nua da existência, usar sem culpa a fala franca, ter lucidez sobre a morte, e sobre as ilusões sociais. Essa pessoa não precisa mais agradar e vive de acordo com a sua verdade psíquica. Muito menos Ego e muito mais Self.

A autoridade serena é o coroamento da individuação.

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