Foi lá pelas bandas do Rio Grande localizado no Rio Grande do Sul que aconteceu essa grande tragédia que culminou nessa história de mistério e glória.
Ainda na época da escravidão dos negros no Brasil, Vivia ali era um fazendeiro muito malvado que buscava impor seu poder com justiça sobre aqueles que, no momento, não poderiam reviver.
Um dia ele trouxe para a fazenda um carregamento de cavalos baios e embora a noite se fez de inverno gelado e de ventos cortantes, encarregou o menino a quem chamou de Negrinho de apenas 14 anos de cuidar dessa manada de cavalos.
No dia seguinte deu por falta de um cavalo baio, chamou o Negrinho e o açoitou sem dó nem piedade e o fez procurar o cavalo diante de uma ameaça ainda maior de tortura.
O rapaz, sangrando e cheio de dores, foi ao encalço do cavalo perdido, não o encontrando voltou para comunicar ao seu algoz que o açoitou novamente e o amarrou em cima de um formigueiro deixando-o ali pernoitar na noite gelada.
No dia seguinte, para sua surpresa, encontrou o Negrinho em pé ao lado do formigueiro, belo, altaneiro, sem nenhuma marca de açoite, ao seu lado estava o elegante cavalo baio. Assim que o fazendeiro ia dizer algo consertado que ali também estava A Virgem Maria bem ao lado do Negrinho.
Espantado e envergonhado, viu o Negrinho beijar a mão da Senhora, montar no cavalo e desaparecer na névoa do inverno.
Talvez o fazendeiro, desse dia em diante não mais tenha açoitado ninguém, talvez tenha açoitado mais ainda, afinal, algumas pessoas não aprendem nada com as intensidades nem da dor nem do amor.
Mas uma coisa é certa, para sempre o Negrinho do Pastoreiro se tornou referência para o povo que quando perde algum objeto logo sai a procura repetindo, “foi por aqui que perdi, foi por aqui que perdi”.
Falam assim em voz alta que é para o Negrinho do Pastoreiro ouvir, porque em breve o objeto retornará ao seu devido lugar. Sempre funciona, pois se o Negrinho do Pastoreiro não o encontrar então, nada nem ninguém o encontrará.
Como atesta nossas lendas brasileiras, somos um povo que provam do índio e do negro. Os negros ainda são escravizados em alguns lugares da Terra, e os índios, no Brasil, ainda são obrigados a viverem dessa ou daquela forma devido à violência da conquista que lhes é imposta e que ainda lhes são impostas.
O crescimento do contingente populacional brasileiro é uma multiplicação de seres que não sabem de onde provem e por não pertencer a nada não tem projeto de futuro permanecendo vulnerável ao comando de outros.
Nos contentamos em nos sentir pertencentes a uma vida cotidiana que alimenta a exploração e a ganância de governos corruptos.
As lendas brasileiras, tais como o Saci-Perere, a MatintaPerera, Curupira, Lobisomen, Acutipupu, Mapinguari, Yara, Cobra Norato, e outras não menos importantes, demonstram que nosso psiquismo é todo ele imerso no contexto do indígena e do negro perfazendo nossa identidade primordial. É nossa origem e até hoje ainda nos contentamos com objetos que brilham, o ouro do tolo.
Desde o início abusaram da curiosidade indígena e de sua inocência para roubar, vilipendiar e corromper. No momento brasileiro, os políticos corruptos ainda fazem o mesmo com toda a população. A saúde e a educação completamente negligenciadas apenas para a propaganda ideológica e política.
Não há nada que sirva de fato ao povo. Todos os acordos são sempre condicionados a manter e enaltecer o status das figuras políticas do país, tanto nacional quanto internacionalmente.
Os minérios brasileiros são vendidos ou simplesmente exportados para outras nações. O que mudou dede a descoberta do Brasil em que houve exploração e roubo de tesouros desta terra? É que hoje o roubo e a exploração é muito maior, se tornou endemica e ganharam um cunho ideológico que procura justificar a ganância pelo poder e dominação.
Parece-me que estamos vivendo uma identificação com nosso agressor. Trata-se de um mecanismo de defesa psíquica que mobiliza a capacidade de adaptação e de resiliência. Uma pessoa confrontada com um perigo exterior identifica-se com o agressor, reproduzindo os seus comportamentos, imitando-o moralmente ou fisicamente, ou então assumindo por si próprio a culpa da agressão. Chama-se Sindrome de Estocolmo.
Penso que é isso que estamos vivendo, posto que nos esquecemos completamente de onde realmente viemos e não estamos fazendo o menor esforço para nos lembrar, muito pelo contrário, o que parece, com raras abordagens, é que estamos tentando o máximo possível nos assemelhar ao fazendeiro malvado que agita seu chicote quando não é obedecido em seus caprichos.
Negrinho do Pastoreiro, foi por aqui que perdemos nossa identidade, foi por aqui que a perdemos!
Se você não a encontrar para nós, ninguém mais a encontrará!
Lunardon Vaz
