PSICOLOGIA DA DECEPÇÃO – o colapso dos sentidos
A decepção é uma experiência emocional universal — ela nasce do
confronto entre expectativa e realidade.
Psicologicamente, não é apenas “ficar triste”: é um pequeno colapso
dos sentidos. Algo em que investimos afeto, confiança e esperança falha em
corresponder, e o psiquismo precisa se reorganizar.
O que acontece psicologicamente?
Quando uma expectativa significativa, seja de uma situação
seja de uma relação é frustrada, psicologicamente ocorre um verdadeiro abalo.
O cérebro humano é preditivo: estamos o tempo todo
antecipando resultados, confiando em padrões e construindo narrativas sobre o
futuro. Quando a realidade rompe essas previsões, há um choque
cognitivo-emocional.
Esse choque ativa o sistema de dor social que é similar à dor
física.
A resposta em decorrência a esse estresse é um processo de
luto. Incrível? Sim, a decepção envolve micro lutos e por si mesma, pode mudar
uma pessoa.
Do ponto de vista psíquico, a decepção frequentemente toca em
camadas mais profundas do que o evento imediato — ela pode reativar
experiências antigas de abandono, rejeição ou traição.
Pode-se dizer que existe etapas psicológicas da decepção,
vamos buscar falar sobre elas de um jeito amigável e compreensível.
Embora não sejam lineares nem iguais para todos, a decepção
costuma atravessar algumas fases reconhecíveis que são etapas psicológicas de
decepção.
Primeiramente advém o choque, o momento de ruptura e o que
está em jogo é a esperança, o afeto, as construções de futuro e as
expectativas.
O choque vem com incredulidade, estado confusional, sensação
de “não pode ser”. Nesse tempo o psiquismo ainda está tentando sustentar a
expectativa anterior. O sujeito pode até se sentir, momentaneamente,
anestesiado.
Em segundo lugar sobrevém a intensa dor emocional através do
reconhecimento da realidade que se impõe sobre a ilusão até ali sustentada.
Esse momento vem acompanhado da tristeza, da mágoa, do
sentimento de rejeição, de menos valia e da sensação de que foi trouxa. Está
instalada a ferida narcísica.
Aqui o investimento afetivo perdido começa a ser sentido.
Quanto maior a expectativa ou idealização, mais intensa tende a ser a dor.
Surge então, um terceiro momento, o ego busca se proteger
utilizando defesas psíquicas tais como a raiva, a irritabilidade,
racionalização do tipo “na verdade, nem era tão importante!”, junta-se a
desvalorização do outro e sobretudo, a culpa dirigida a si mesmo. Se maltrata
quando deveria se acolher carinhosamente e reconhecer que nem todo mundo lhe
será fiel.
O que há de bom nessa fase é que o movimento psíquico está
buscando recuperar seu equilíbrio e sua autoestima.
Essa fase é importante porque mostra o movimento do psiquismo
tentando recuperar equilíbrio e autoestima.
Na sequência, desse sofrimento particularmente humano, de
modo saudável a pessoa inicia a elaboração do acontecido ao simbolizar a
experiência. Os sinais de elaboração aparecem quando consegue pensar sobre o
ocorrido diferenciando a fantasia da realidade, reconhecendo sua participação e
na tolerância das ambivalências, sobretudo que, como qualquer outra pessoa,
pode sim acontecer de ser traído e não mais amado.
Aqui a decepção deixa de ser apenas dor bruta e passa a ser
experiência psíquica assimilável que abre caminho para a etapa transformadora:
a reorganização psíquica.
Se percebe que antes estava vivendo uma consciência onírica
em que faltava o desempenho intelectual e ético, agora a consciência se
desprega da instintualidade agregando, à vontade, o desenvolvimento orientado
para agir e ao mesmo tempo considerando a naturalidade e espontaneidade
anterior ao colapso.
Os possíveis movimentos que demonstram essa etapa são a
revisão das expectativas contando com a consciência de seu próprio limite; o
amadurecimento do olhar sobre o outro; maior discriminação emocional e
redefinição de limites que possam preservar o ego.
Quando bem elaborada, a decepção pode produzir crescimento psíquico — menos idealização, mais
realidade.
No entanto, esse processo pode ficar emperrado quando a
idealização estiver muito rígida ou quando existem feridas narcísicas antigas
implicando em baixa tolerância à frustração e comumente, repetição de padrões
relacionais.
Consequentemente, a reorganização psíquica fica postergada e
o sujeito assume posição de vítima ou mesmo de autopunição e o que é
socialmente perturbador, assume o desejo de vingança.
Nesses casos, a decepção não vira aprendizado — vira
ressentimento crônico, cinismo, agressividade, reatividade ou retraimento
afetivo.
Conforme um olhar mais profundo, do ponto de vista junguiano,
a decepção muitas vezes marca o colapso de uma projeção.
Aquilo que víamos no outro (ou na situação) continha
elementos da nossa própria psique não reconhecida.
A dor vem não só da perda do objeto, mas da perda da
imagem idealizada que sustentava o vínculo.
Por isso, toda decepção importante carrega uma pergunta
silenciosa:
O que em mim estava depositado ali?
Quando essa pergunta pode ser feita, a decepção deixa de ser
apenas ferida — e se torna material de transformação.
Sonia Lunardon Vaz – Analista Junguiana
