USE SUA SENSIBILIDADE NO PROCESSO DE CURA
O conceito de arquétipo foi cunhado pelo próprio Jung e significa um conjunto de “imagens
primordiais”, experimentadas, vivenciadas, em várias gerações e armazenadas no
inconsciente coletivo.
O centauro Quiron representa o arquétipo da cura e da sabedoria clara e radiante.
Na mitologia grega, conta-se que os centauros, ao
contrário de Quiron, eram seres monstruosos que viviam nas florestas e
montanhas se alimentando de carne crua, bebendo vinho até a embriaguez e muito
inclinados a brutalidade, inclusive violando as mulheres.
Sempre surgiam em bando cometendo diversos delitos e por isso foram identificados como sendo o
aspecto bestial do humano, simbolizando a força bruta, insensata e cega.
O que se passa com o centauro Quiron é muito diferente disso.
Cronos teve um romance com a ninfa Filira e para se esconder de sua esposa, Réia,
Cronos assumiu a forma de um cavalo, seu filho nasceu centauro, metade homem, metade animal.
Abandonado pelos pais, o deus Apolo o adotou e lhe
instruiu nas artes, música, poesia, ética, filosofia, artes divinatórias e
profecias, terapias curativas e ciência.
Quiron representa o lado racional e iluminado da medicina seja do corpo como do
espírito, simbolizando a força aliada à bondade.
Vivia numa caverna do monte Pelion, donde
praticava sua sabedoria de cura e de intelecto, por isso foi um aliado e mentor
de vários heróis gregos, como Aquiles, Hercules, Fênix, Ajax e outros.
Era muito amigo de Hercules que por ocasião de sua
quarta tarefa quando derrotou o grande javali de Erimanto, foi ter com Quiron
numa taberna.
Ali os demais centauros se embriagaram e atacaram Hercules que
disparou contra eles várias flechas envenenadas pelo sangue da hidra que já
havia derrotado em outra passagem de sua história.
Acidentalmente uma delas penetra na coxa de Quiron abrindo uma ferida que jamais cicatrizou e
causando em Quiron dores e sofrimento contínuos e lancinantes.
O mitólogo Karoly Kerényl, em um de seus estudos,
diz que tudo em Quiron, o médico divino e ferido o faz parecer a mais
contraditória figura de toda a mitologia grega.
Apesar de ser um deus grego, sofre de uma ferida incurável, significando que tem capacidade empatica com os feridos e seu sofrimento.
Além disso, a sua figura combina o aspecto animal com o apolíneo, pois apesar do seu corpo de
cavalo – configuração pela qual são conhecidos os centauros, criaturas da
natureza, fecundos e destrutivos – é ele quem instrui os heróis nas artes da
medicina e da música.
Penso que a diferença entre Quiron e os demais
centauros esteja no fato de ter tido o deus Apolo como pai adotivo, pois o deus
do sol e da juventude ilumina em Quiron sua razoabilidade que não se deixa
tomar pelos seus instintos selvagens, resultando em disciplina e sabedoria
material e espiritual.
Observando que quando se fala em espírito, dentro da Psicologia Analítica,
significa energia psíquica, a força e plasticidade que nos mantem e nos impulsiona ao
conhecimento criador e vida criativa.
Para seu desenvolvimento e evolução humana, o humano
necessita ter consciência de seus opostos, um aspecto bestial e outro divino.
É a composição equitativa desses dois elementos que nos impulsiona a uma nova fase, à
maturidade seja ela chamada de espiritual ou psicológica.
Sem dúvida o mito de Quiron marca os profundos conflitos do humano entre a razão e os
instintos.
Certa vez Quiron se compadeceu de Prometeu troca a imortalidade que havia roubado o fogo dos céus
para oferecer a humanidade o que levou Zeus a lhe imputar grande sofrimento,
fazendo com que uma águia comesse seu fígado e como não conseguia morrer, todos
os dias passava pelo mesmo sofrimento.
Junto a Quiron, Prometeu pede piedade. Quiron então lhe concede a mortalidade.
A nobreza de Quiron faz com que Prometeu cumpra
com sua missão de elevar a condição humana com o fogo roubado dos céus
ao mesmo tempo em que se livra do padecimento eterno.
Reconhecendo seu valor, Zeus o homenageou,
colocando-o no céu como a constelação que chamamos de Sagitário.
Esse mitologema nos dá a certeza de que o conhecimento científico, artístico e poético refina o
espírito e propicia a contenção dos impulsos instintuais que degradam o humano.
Quiron é um dos arquétipos da medicina. Mesmo sem o saber, o médico concede ao paciente uma aura de
esperança e de cura. Não é à toa que muitas pessoas se sentem melhor apenas por
conversar com seu médico.
O arquétipo tem esse poder e quiçá os médicos tivessem tal consciência. A consciência de que o
arquétipo se faz presente através de sua atuação integra e responsável.
Por isso a escolha em se fazer medicina deveria recair sobre um desejo honesto em levar
ao seu paciente a benevolência e sua ciência para o cuidado necessário.
Esse arquétipo não será vivenciado quando o médico fez tal escolha de modo pragmático.
Seu paciente sentirá a diferença e se decepcionará caso o médico não seja ponte
entre o ele e o arquétipo de Quiron, mesmo porque a questão é de percepção
e de sensibilidade, sabedoria que todo humano possui embora não se dê conta de
forma racional.
O poder está em nós e como todo poder, irá ser utilizado
conforme o caráter de cada um.
